É fácil criar uma língua?
Robertson Frizero Barros
Segundo o lingüísta Paulo Rónai, a idéia de criação de uma língua universal teria surgido da incômoda noção – para ele, bastante européia – da necessidade de um idioma internacional que pudesse auxiliar a comunicação dos povos além de suas línguas nacionais. Tal busca de uma língua universal esteve sempre acompanhada de uma ideologia pacifista, uma “confiança na possibilidade de soluções internacionais pacíficas” que contém, em seu âmago, a convicção de que uma língua internacional pode ser uma ferramenta importante na construção de uma sonhada fraternidade universal ao permitir a compreensão dos povos – um viés ideológico que é, de certa forma, reducionista ao creditar à incapacidade de comunicação direta entre os povos a razão maior da violência entre as nações. A esta idéia pacifista Paulo Rónai também atribui o argumento para que fosse usada uma língua artificial para o cumprimento de tal tarefa em detrimento do uso de línguas nacionais. Acreditavam os criadores dessas línguas artificiais que a escolha de uma língua natural para assumir a função de língua universal daria ao povo cuja língua fosse escolhida como internacional uma certa supremacia sobre todos os outros povos - um discurso que, coincidentemente, é ainda o mesmo usado por muitos que se contrapõe modernamente ao destaque incontestável da língua inglesa no cenário mundial.
Diversos estudiosos propuseram línguas artificiais que pudessem ser usadas para tal finalidade nobre, a de promover o entendimento entre os povos. As primeiras tentativas de elaboração de línguas artificiais foram todas apriorísticas, ou seja, seus inventores criaram todo o vocabulário dessas línguas sem buscar qualquer referência lexical em outras línguas existentes. Tal preocupação em produzir um novo léxico era uma tentativa de fortalecer a idéia de uma língua lógica, fugindo assim da “irracionalidade” das línguas naturais, nas quais palavras poderiam ter mais de um significado ou serem semelhantes a outras cujo sentido não mantém nenhuma relação com o seu. Tal sistema, contudo, mostrou-se por demais complexo. Dois exemplos, ambos do século XV, ilustram bem tal problema: na língua Ars Signorum de George Dalgarno, por exemplo, a cada letra seria atribuída uma classe filosófica definida, formando assim as palavras a partir de intrincadas conceituações nas quais cada letra remetia a um aspecto do ser, coisa ou sentimento representado; na língua matemática do filósofo e matemático Gottfried Wilhelm Leibniz, os conceitos simples eram representados por números e conceitos mais complexos pelo produto da multiplicação de tais números. Entretanto, a negação da estrutura básica usada pelas línguas naturais – a internalização de raízes silábicas como forma de memorização de som e sentido das palavras – fez com que estas e outras tentativas de criação de línguas artificiais apriorísticas estivessem fadadas ao fracasso. Até mesmo uma língua artificial que propunha a construção de um vocabulário a partir da escala musical ocidental foi construída: o Solresol, língua criada por Jean-François Sudre em 1817, era uma língua artificial que teria o solfejo como base de pronúncia e entonação.
Outras línguas artificiais surgiram que tiveram por base o léxico e a gramática de línguas naturais do conhecimento de seus inventores. Destas, a primeira a reunir adeptos e ser usada com relativo sucesso foi o volapuque, criado em 1880 por Johann Martin Schleyer, um religioso católico alemão que estudara, segundo registros históricos, mais de oitenta e três idiomas. A base do vocabulário do volapuque, contudo, é a língua inglesa, adotada pelo prelado por ser já naquela época falada por cerca de cem milhões de indivíduos, o que facilitaria a divulgação da nova língua internacional – mas a base gramatical era o alemão, língua primeira do religioso. O volapuque teve uma ascensão rápida em termos de adeptos, somando mais de um milhão de volapuquistas em todo o mundo, em números apurados pelos congressos internacionais realizados em número de três entre 1884 e 1889 - no Rio Grande do Sul, chegou-se a editar um jornal totalmente escrito em volapuque! Contudo, as falhas do idioma criado por Schleyer fizeram com que tal língua fenecesse nos anos seguintes, tendo praticamente desaparecido nas primeiras décadas do século XX.
Das diversas línguas artificiais desenvolvidas até o século XIX, pode-se dizer com alto grau de certeza que o esperanto é aquela cuja simplicidade nas regras gramaticais, tanto na formação vocabular por afixação quanto na sintaxe – posteriormente explicadas neste trabalho –, garantiu à mesma uma maior sobrevida, sendo presentemente a mais falada das línguas artificiais já criadas. Rónai diz que “a maior contribuição do Esperanto para a solução do problema das comunicações internacionais consiste em ser ele o primeiro idioma artificial que não nasceu morto, como quase todos os seus predecessores, nem morreu ao cabo de alguns anos de vida, com a exatidão do entusiasmo de seus adeptos, como o volapuque”.
Em comparação à sua antecessora, o volapuque, a língua artificial esperanto teve como vantagens o fato de seu inventor, Ludwik Lejzer Zamenhof, médico e filólogo polonês que aprendera de berço o russo e o iídiche, ter primado, na construção de seu projeto de língua universal, pelos princípios da economia lingüística de André Martinet e na negação do que chamou de “opulência de formas gramaticais” que, nas línguas naturais, segundo ele, é “apenas uma casual ocorrência histórica, desnecessária a uma língua”. Além disso, Zamenhof previu no futuro de sua língua internacional a intervenção dos falantes e estudiosos – algo que Schleyer, criador do volapuque, descartou ao declarar, por ocasião de uma sugestão de acertos naquela língua por estudiosos e volapuquistas, que “o volapuque era propriedade sua privada e que, como tal, ninguém podia modificá-la sem seu consentimento”.
A perspectiva de mudanças futuras necessárias ao sucesso da língua internacional esperanto, já expressa nos trabalhos de divulgação da mesma por seu criador, vieram a se confirmar nas evoluções impressas por seus falantes nas décadas posteriores, seja pelos inúmeros congressos internacionais e publicações sobre tal língua ou por fenômenos de alteração do esperanto que começaram a ser percebidos recentemente – como, por exemplo, a forma pela qual o esperanto tem sido apropriado e modificado por crianças bilíngües que aprendem esta língua artificial como uma de suas línguas de berço. Precisar o número de falantes de esperanto atualmente, contudo, torna-se uma tarefa difícil por ser esta língua tipicamente aprendida como língua estrangeira, e muitas vezes de forma autodidata por seus falantes, quer seja por meio da literatura existente para o estudo do esperanto[9], quer seja modernamente pelo auxílio dos meios eletrônicos, mormente dos cursos de esperanto mantidos na rede mundial de computadores (Internet), muitos deles com a possibilidade de o aprendiz contar com o auxílio de tutores voluntários via correspondência eletrônica (e-mail).
O esperanto, curiosamente, tem sido usado nos Estados Unidos da América, em algumas escolas, como ferramenta de iniciação de seus alunos no estudo de línguas estrangeiras: sabe-se que ao aprender uma primeira língua estrangeira, o estudante constrói estratégias que lhe serão úteis para o estudo futuro de outras línguas; o esperanto, por sua gramática facílima e pela pronúncia facilitada, mostrou-se uma língua de fácil aprendizagem para as crianças e estudos realizados nessas escolas apontam para um melhor desempenho dos alunos do ensino fundamental que fizeram dois anos de esperanto e dois anos de uma outra língua estrangeira em comparação aos alunos que fizeram quatro anos daquela mesma língua estrangeira.
O exemplo acima mostra que a história surpreendente e curiosa das línguas artificiais - e o sucesso de uma delas, o esperanto, que até hoje é usado largamente como língua de comunicação entre pessoas de diversas partes do mundo, que se organizam em associações e congressos internacionais - pode ser um interessante tema para nós, professores de línguas estrangeiras, trabalharmos com nossos alunos, tanto para despertarmos neles a curiosidade acerca dos elementos que constituem uma língua até o interesse em aprender algo mais sobre essas línguas estrangeiras. As línguas artificiais podem, sim, servir de um fator motivador para que o aluno reflita sobre o uso de sua própria língua. Há que se lembrar que a ficção dos tempos atuais criou também suas línguas artificiais - o klingon de “Jornada nas Estrelas” e as línguas diversas criadas por J. R. R.Tolkien para os diversos seres de sua grandiosa trilogia “O Senhor dos Anéis” têm hoje falantes e estudiosos que, apaixonados pelas obras de ficção, aprofundaram-se em seu estudo a ponto de tornar vivas essas línguas que, diferentemente do esperanto, sequer foram pensadas como língua de comunicação. Se a ficção pode mover interesses ao ponto de criar falantes de uma língua artificial, por que não usar as línguas artificiais para despertar a curiosidade de nossos alunos pelas línguas estrangeiras como um todo? Talvez seja esse um dos caminhos para a construção de uma compreensão mútua, de um entendimento fraternal entre os povos, que tanto almejamos.
Para saber mais sobre o esperanto, e até mesmo para usá-lo em sala de aula de língua estrangeira, aqui vão alguns sites de interesse:
http://www.esperanto.ca/kurso/home.htm - site norte-americano com noções básicas (em inglês) de Esperanto.
http://www.esperanto-usa.org/ - site da Liga Esperantista para a América do Norte (em inglês e esperanto).
http://www.uea.org/ - site da Universala-Esperanto Asocio (Associação Internacional de Esperanto), com diversos links de interesse (em inglês, francês, espanhol, português, alemão, russo e esperanto).
http://pt.lernu.net/ - Lernu.net é um portal sobre Esperanto, com diversas informações. O melhor do portal é o curso gratuito online de Esperanto , baseado em pequenos diálogos. (Em português, mas há versões em diversas outras línguas, incluindo o Mandarim)
http://esperanto.org.br/p/ - Liga Brasileira de Esperanto (em português e esperanto).
Para saber um pouco mais sobre as línguas de ficção - klingon, élfico e outras - visite:
http://www.kli.org/ - site do The Klingon Language Institute (acreditem!), com dicas sobre gramática e vocabulário… (em inglês)
http://www.khemorex-klinzhai.de/e/Hol/ - The Klingon Language- site que reúne curiosidades diversas sobre a língua, dentre as quais uma tradução de “Hamlet”, de Shakespeare, para a língua dos extraterrestres de Star Treck. (em inglês)
http://babel.uoregon.edu/yamada/guides/tolkien.html - site com informações sobre todas as línguas criadas por J. R. R. Tolkien para os diversos seres com os quais povoou seu universo fantástico em “O Senhor dos Anéis”. Tolkien era um estudioso de línguas antigas, professor de Harvard e um meticuloso escritor - “O Senhor dos Anéis”, sua obra mais conhecida, é sua busca em criar uma mitologia “possível” para a Inglaterra, baseando-se nos mitos nórdicos; para tornar aquele complexo universo o mais verossímil´, Tolkien criou até mesmo as línguas - com seus intrincados alfabetos - falados por cada um daqueles povos, e que eventualmente aparecem no corpo da trilogia.