Demissões sem causa
Creio ser do interesse de todos o artigo publicado no Jornal Extra Classe - nº 111 - Março 2007 - seção Educação - do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do RS (Sinpro/RS):
Demissões sem causa
Sem considerar os currículos e nem a contribuição dos docentes para a excelência do ensino, as universidades inauguram uma nova fase de demissões. Em alguns casos, a alegação é a mudança nos cursos e, na maioria, nem sequer é apresentado o motivo. Segundo um levantamento realizado pelo Sinpro/RS em 2006, 1.771 docentes foram demitidos nas instituições em todo o Estado, e desde o início de 2007, já foram dispensados 168. Diante dessa realidade, cresce a preocupação com a qualidade do ensino, visto que muitos dos que foram excluídos do quadro são pesquisadores, responsáveis pelo desenvolvimento de programas de mestrado e doutorado e projetos de extensão. Exatamente as áreas que asseguram a produção do conhecimento, uma das funções das universidades prevista em lei, que determina a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
por Stela Rosa
Jorge Almeida Guimarães, presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (Capes) do Ministério da Educação (MEC), alerta que exonerar doutores e mestres pode repercutir negativamente. “É um risco para a graduação e, principalmente, para a pós-graduação. Isso pode levar à queda de conceito, e as instituições que ficam com nota três são fechadas”, informa. Jorge Almeida pondera que ter bons profissionais garante prestígio e qualidade e, por conseguinte, mais alunos. Diante disso, não seria essa a melhor alternativa para baixar custos com a folha de pagamento, razão também apontada como causa.
As recentes demissões realizadas pela PUC-RS seguem uma tendência já inaugurada há alguns anos por outras universidades com tradição e demonstram a seriedade da situação. Sem apresentar motivos, a instituição demitiu as professoras Maria da Glória Bordini e Regina Zilberman, da pós-graduação de Letras, além de outros docentes. A atuação delas tinha tal reconhecimento que provocou críticas de acadêmicos, escritores e estudantes, motivando um abaixo-assinado e a retirada do acervo literário de Erico Verissimo da instituição. Com intensa produção na área de pesquisa, elas atuavam na universidade há mais de duas décadas e eram responsáveis por iniciativas inovadoras, como o projeto pioneiro de organização de acervo literário, criado por Maria da Glória Bordini, que garantiu visibilidade à PUCRS tanto no Brasil como no exterior. O escritor Moacyr Scliar, cujas obras também integram o projeto, foi um dos que criticou o afastamento. “Maria da Glória fez, e faz, muito pela literatura no Rio Grande do Sul. Sua saída da PUC é, pois, lamentável”, frisa Scliar.
Sem critérios para demitir 
Outros aspectos questionados são a falta de critérios e os métodos utilizados. Amarildo Cenci, diretor do Sinpro/RS, ressalta que há situações constrangedoras, nas quais o docente, ao ser demitido, torna-se persona non grata. “Inúmeros professores queixam-se do tratamento. A PUCRS, por exemplo, vem suprimindo automaticamente o cartão de ingresso, o e-mail e até mesmo o acesso aos arquivos. É preciso respeitar os profissionais e reconhecer o trabalho prestado”, denuncia. Cenci frisa que vem sendo pontuada pelas entidades sindicais a necessidade de constituir espaços extra-institucionais para inibir abusos. “Continuaremos lutando para que essas questões sejam evitadas e um dos caminhos é a inclusão no projeto de lei da Reforma Universitária de critérios essencialmente acadêmicos para contratação e demissão de docentes, e não de clientelismo”, pontua.
No que se refere à PUCRS, o estabelecimento de critérios para as demissões já foi debatido pela própria Universidade. O professor Assis Piccini, ex Pró-Reitor adjunto de graduação, também afastado sem razão, informou que há um projeto prevendo a criação de um conselho para discutir essas questões, mas que ficou só no papel. “Falta transparência, não são apresentadas as causas, e os professores não recebem nenhum tipo de acompanhamento”, constata. Para a advogada da assessoria Jurídica do Sinpro/RS, Luciane Lourdes Webber Toss, as demissões devem ser transparentes para evitar, inclusive, as discriminações. “Já tivemos relatos de professores que se sentiram descartados em função da faixa etária, porque foram dispensados sem motivos após os 60 anos”, ressalta.
Professores desconhecem razões
Na recente onda de demissões da PUC, a principal crítica dos docentes é a falta de respeito. Maria da Glória Bordini pontua a desvalorização do trabalho construído. “Contribuímos para o reconhecimento da PUC e somos expelidos em cinco minutos. Falta compreensão do papel da universidade e a importância de manter a qualidade”, analisa. Regina Zilberman avalia que as universidades precisam valorizar os docentes. “Os professores são um patrimônio fundamental para a excelência de ensino, o credenciamento, pois os currículos desses são essenciais no processo e importantes também para captar recursos de subvenção pública, como as bolsas de iniciação científica”, pontua.
Os abusos também fazem parte do cenário, resultando em ações judiciais. Jorge Sarriera, que era da faculdade de psicologia da PUC, passou por uma série de circunstâncias constrangedoras antes da demissão, em 2006. Em função disso, atualmente ele move processo de assédio moral. “A estratégia foi impossibilitar minha atuação, com boicote de autorizações para me ausentar e cumprir minhas responsabilidades nas sessões de avaliação de projetos no CNPq ou de participar em bancas fora do país, deixando sem resposta as minhas solicitações, entre outras situações”, relata.
Alunos são prejudicados
Wagner Coriolano de Abreu, orientando de Regina Zilberman, e Ítalo Ogliari, orientando de Maria da Glória, ficaram sem as orientadoras na etapa final dos trabalhos e nem mesmo foram comunicados pela instituição. “Essa parece ser a tendência da conjuntura atual. No ano passado, aconteceu com professores da Unisinos. Isso é grave, e as universidades devem repensar seus projetos do ponto de vista da qualidade. Não podemos banalizar o ensino superior”, pondera Coriolano. Para Ítalo Ogliari, não há uma explicação institucional. “Eram professoras de ponta”, diz.
Há um país no qual a carreira docente tem um prestígio equivalente aos dos advogados, médicos e engenheiros, e onde ser professor é uma das ocupações mais procuradas pelos jovens universitários. Ingressar nessa carreira é, por conseqüência, muito difícil, e estima-se que apenas 20% (vinte por cento) dos que aspiram a uma vaga na universidade nos cursos de licenciatura conseguem tal intento. Todos os professores em atividade nesse país, aliás, não importando se atuam no Ensino Fundamental, Médio ou Superior, passaram por um curso de formação universitária.
Como todo bom documentarista, João Jardim teve a preocupação em não apresentar respostas prontas em seu documentário Pro Dia Nascer Feliz, o grande vencedor do Festival de Gramado de 2006 - melhor filme do Júri Popular, prêmio especial do Júri Oficial e Prêmio da Crítica. Mas, como toda obra de arte - e porque não chamar um documentário de arte? -, as perguntas que lança ao espectador são bem mais contundentes que qualquer solução antecipada que o cineasta pudesse oferecer.
O contraste que Jardim oferece entre as escolas de periferia e o colégio particular de um bairro de classe alta paulistano não é gratuito, nem uma tola tentativa de remeter à luta de classes, tema tão querido a alguns cineastas brasileiros. O diretor e roteirista mostra, com essa visita, que o principal fator desmotivador do aluno brasileiro é a falta de perspectiva: os alunos do Colégio Santa Cruz, do bairro Alto Pinheiros, sabem que estudar é um caminho para que eles construam sua vida futura e vêem-se estimulados tanto pelos pais quanto pela escola; aos alunos de periferia, o que lhes resta? Uma vida sem perspectiva, em geral filhos de lares com pai ausente, sem nenhuma razão para acreditar que a educação os levará até uma vida melhor. Algumas cenas expressam bem a forma como seus sonhos são destruídos: Jardim entrevistou, por exemplo, uma menina da periferia de Itaquaquecetuba que encontrou um novo ânimo e uma razão para escrever ao participar do fanzine de sua escola; no ano seguinte, a mesma aluna, após concluir o Ensino Médio, trabalha em uma fábrica como dobradora de calças e confessa que já não encontra motivos para escrever; outra, no interior de Manari, é discriminada por ter o hábito estranho de ler e escrever - ela cita Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, e confessa que seus professores sempre lhe deram notas baixas na escola por acharem que suas redações eram plagiadas de autores consagrados. É dessa menina de Manari, que estuda para ser professora no curso de Magistério da cidade vizinha, uma das mais belas cenas de Pro Dia Nascer Feliz, quando ela recita a releitura do famoso poema Canção de Exílio, de Gonçalves Dias, que ela escreveu em referência à sua realidade de menina pobre de cidade do sertão pernambucano - um poema que denota um talento literário que, provavelmente, jamais florescerá por mera falta de oportunidades. 

Segundo o lingüísta Paulo Rónai, a idéia de criação de uma língua universal teria surgido da incômoda noção – para ele, bastante européia – da necessidade de um idioma internacional que pudesse auxiliar a comunicação dos povos além de suas línguas nacionais. Tal busca de uma língua universal esteve sempre acompanhada de uma ideologia pacifista, uma “confiança na possibilidade de soluções internacionais pacíficas” que contém, em seu âmago, a convicção de que uma língua internacional pode ser uma ferramenta importante na construção de uma sonhada fraternidade universal ao permitir a compreensão dos povos – um viés ideológico que é, de certa forma, reducionista ao creditar à incapacidade de comunicação direta entre os povos a razão maior da violência entre as nações. A esta idéia pacifista Paulo Rónai também atribui o argumento para que fosse usada uma língua artificial para o cumprimento de tal tarefa em detrimento do uso de línguas nacionais. Acreditavam os criadores dessas línguas artificiais que a escolha de uma língua natural para assumir a função de língua universal daria ao povo cuja língua fosse escolhida como internacional uma certa supremacia sobre todos os outros povos - um discurso que, coincidentemente, é ainda o mesmo usado por muitos que se contrapõe modernamente ao destaque incontestável da língua inglesa no cenário mundial.
Diversos estudiosos propuseram línguas artificiais que pudessem ser usadas para tal finalidade nobre, a de promover o entendimento entre os povos. As primeiras tentativas de elaboração de línguas artificiais foram todas apriorísticas, ou seja, seus inventores criaram todo o vocabulário dessas línguas sem buscar qualquer referência lexical em outras línguas existentes. Tal preocupação em produzir um novo léxico era uma tentativa de fortalecer a idéia de uma língua lógica, fugindo assim da “irracionalidade” das línguas naturais, nas quais palavras poderiam ter mais de um significado ou serem semelhantes a outras cujo sentido não mantém nenhuma relação com o seu. Tal sistema, contudo, mostrou-se por demais complexo. Dois exemplos, ambos do século XV, ilustram bem tal problema: na língua Ars Signorum de George Dalgarno, por exemplo, a cada letra seria atribuída uma classe filosófica definida, formando assim as palavras a partir de intrincadas conceituações nas quais cada letra remetia a um aspecto do ser, coisa ou sentimento representado; na língua matemática do filósofo e matemático Gottfried Wilhelm Leibniz, os conceitos simples eram representados por números e conceitos mais complexos pelo produto da multiplicação de tais números. Entretanto, a negação da estrutura básica usada pelas línguas naturais – a internalização de raízes silábicas como forma de memorização de som e sentido das palavras – fez com que estas e outras tentativas de criação de línguas artificiais apriorísticas estivessem fadadas ao fracasso. Até mesmo uma língua artificial que propunha a construção de um vocabulário a partir da escala musical ocidental foi construída: o Solresol, língua criada por Jean-François Sudre em 1817, era uma língua artificial que teria o solfejo como base de pronúncia e entonação.
Outras línguas artificiais surgiram que tiveram por base o léxico e a gramática de línguas naturais do conhecimento de seus inventores. Destas, a primeira a reunir adeptos e ser usada com relativo sucesso foi o volapuque, criado em 1880 por Johann Martin Schleyer, um religioso católico alemão que estudara, segundo registros históricos, mais de oitenta e três idiomas. A base do vocabulário do volapuque, contudo, é a língua inglesa, adotada pelo prelado por ser já naquela época falada por cerca de cem milhões de indivíduos, o que facilitaria a divulgação da nova língua internacional – mas a base gramatical era o alemão, língua primeira do religioso. O volapuque teve uma ascensão rápida em termos de adeptos, somando mais de um milhão de volapuquistas em todo o mundo, em números apurados pelos congressos internacionais realizados em número de três entre 1884 e 1889 - no Rio Grande do Sul, chegou-se a editar um jornal totalmente escrito em volapuque! Contudo, as falhas do idioma criado por Schleyer fizeram com que tal língua fenecesse nos anos seguintes, tendo praticamente desaparecido nas primeiras décadas do século XX.
Das diversas línguas artificiais desenvolvidas até o século XIX, pode-se dizer com alto grau de certeza que o esperanto é aquela cuja simplicidade nas regras gramaticais, tanto na formação vocabular por afixação quanto na sintaxe – posteriormente explicadas neste trabalho –, garantiu à mesma uma maior sobrevida, sendo presentemente a mais falada das línguas artificiais já criadas. Rónai diz que “a maior contribuição do Esperanto para a solução do problema das comunicações internacionais consiste em ser ele o primeiro idioma artificial que não nasceu morto, como quase todos os seus predecessores, nem morreu ao cabo de alguns anos de vida, com a exatidão do entusiasmo de seus adeptos, como o volapuque”.
O exemplo acima mostra que a história surpreendente e curiosa das línguas artificiais - e o sucesso de uma delas, o esperanto, que até hoje é usado largamente como língua de comunicação entre pessoas de diversas partes do mundo, que se organizam em associações e congressos internacionais - pode ser um interessante tema para nós, professores de línguas estrangeiras, trabalharmos com nossos alunos, tanto para despertarmos neles a curiosidade acerca dos elementos que constituem uma língua até o interesse em aprender algo mais sobre essas línguas estrangeiras. As línguas artificiais podem, sim, servir de um fator motivador para que o aluno reflita sobre o uso de sua própria língua. Há que se lembrar que a ficção dos tempos atuais criou também suas línguas artificiais - o klingon de “Jornada nas Estrelas” e as línguas diversas criadas por J. R. R.Tolkien para os diversos seres de sua grandiosa trilogia “O Senhor dos Anéis” têm hoje falantes e estudiosos que, apaixonados pelas obras de ficção, aprofundaram-se em seu estudo a ponto de tornar vivas essas línguas que, diferentemente do esperanto, sequer foram pensadas como língua de comunicação. Se a ficção pode mover interesses ao ponto de criar falantes de uma língua artificial, por que não usar as línguas artificiais para despertar a curiosidade de nossos alunos pelas línguas estrangeiras como um todo? Talvez seja esse um dos caminhos para a construção de uma compreensão mútua, de um entendimento fraternal entre os povos, que tanto almejamos.
Para saber mais sobre o esperanto, e até mesmo para usá-lo em sala de aula de língua estrangeira, aqui vão alguns sites de interesse:
alguma coisa). Schlemmer chama-nos, a nós que vivemos naqueles anos e nas décadas anteriores, de a geração “não mexe que estraga”.
esses meios, o que é facilmente evidenciado quando e-mails e textos são impressos para serem lidos, ou, após serem encaminhados, liga-se para saber se o sujeito recebeu”. Segundo Schlemmer, são os “imigrantes digitais” que tentam falar a “língua digital”, mas com “forte sotaque analógico”.
que mesmo as tarefas mais reflexivas que um professor possa propor já encontram respostas disponíveis na Rede e torna-se difícil muitas vezes para os educadores detectar a ação dos plagiadores digitais.